[Texto] Seis Meses

quarta-feira, julho 05, 2017

O texto que trago hoje havia sido escrito originalmente para ser publicado no zine "A Literação" do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. Ele nunca foi publicado até pelo tamanho ser inviavél, eu acredito... Esse foi o último texto que escrevi até me desmotivar totalmente para escrever... Se gostarem, peço para que me motivem a continuar criando histórias.
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Era um frio dezembro. Raro dezembro. Havia chuva. As ruas estavam alagadas e fazia menos de 20 graus lá fora. Eu, que gostava de sentir frio, estava usando um casaco. Sai nas ruas molhadas, sem destino, com um cigarro acesso entre os dedos, uma carteira e isqueiro no bolso.

Vagando pelas ruas encontrei-me de repente em frente a casa dela. Talvez eu tenha, inconscientemente, vindo para cá. Para parar aqui. Fazem seis meses. Seis meses que não sentia a mão quente dela tocando meu corpo. Que não sentia aqueles beijos calorosos no meu pescoço. Que não ouvia aquela risada tímida das minhas piadas forçadas. Seis meses que não a vejo. E por mais triste que seja não consigo derramar uma lágrima. Não consigo dizer uma palavra.

Estava encarando a porta, com a mão encostada na parede, próximo a campainha. Devo ou não devo tocar? Quanto mais questionava-me, mais voltava ao passado. Eu era muito feliz com ela. Ou pelo menos, acreditava ser.

Apertei uma vez. Estava estático. Sentia muitas coisas e ao mesmo tempo sentia nada. A tristeza e um desejo de revê-la me consumiam por dentro. A porta abre. Ela estava surpresa...

- O que você está fazendo aqui? – Perguntou-me. Olhei para ela, incapaz de dizer uma só palavra. - Você me abandonou... Me virou as costas... - Comecei a lembrar porque a separação aconteceu.

Uma hora os abraços deixaram de ser calorosos. O beijo não excitava mais. Ela se tornou sem graça. Como uma criança que enjoa do brinquedo, eu a deixei de lado. Então ela começou a histeria para chamar minha atenção. Fiquei irritado e desapareci.

Agora estou aqui, na frente dela. Ela continua linda, mesmo com suas feições mais magras. Seus olhos, antes tão cheios de vida, se tornaram inchados e vermelhos de tanto derramar lágrimas. O que me trouxe aqui? Será saudade?

- Não adianta... Você não é capaz de fazer algum sacrifício por mim. Vá embora. Viva a sua vida perfeita, sem imperfeições como eu. – Fechou a porta na minha cara. Tive vontade de chorar, mas as lágrimas não caíram. Senti uma forte dor de cabeça, que quase me fez desmaiar.

Sai dali e continuei vagando pela rua. Era noite e estava serenando. Uma chuva forte parecia estar próxima a cair. Achei um banco vazio, molhado pela chuva, em uma praça no meio do caminho. Sentei ali.

Com o cigarro acesso, dei uma tragada, esperando que a dor de cabeça parasse. Soltei uma fumaça fraca. A nicotina tinha ficado quase toda nos pulmões. Respirei fundo. Já era madrugada, e eu sentia saudade dela. Chovia, e a chuva tinha apagado o cigarro. Estava sem animo, sem forças. Esperava algo. Algo que talvez nunca viesse ou nunca fosse voltar. Talvez o nascer do sol, com a coragem de me levantar daquele banco e ir embora.


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